Multidão transforma ruas em tapete sagrado em Ponta Grossa
Procissão de Corpus Christi reúne cerca de 40 mil fiéis em celebração que emociona bispo e reforça o sentido de comunidade
20.06.2025 - 01:21:27

O sol da tarde desenhava sombras alongadas sobre o asfalto quando Ponta Grossa se transformou em um rio humano de fé. Nesta quinta-feira, 19 de junho, a tradicional procissão de Corpus Christi reuniu as paróquias da cidade em um trajeto de 3,5 km que parecia tecer, com passos e cantos, um tapete vivo de devoção. Protegido por um extenso cordão de padres, Ministros da Comunhão e Esperança, acólitos e coroinhas, Dom Bruno Elizeu Versari carregava o Santíssimo Sacramento com as mãos firmes e o coração em festa. Esta foi a primeira experiência como bispo diocesano na celebração que considera "o coração da fé católica".
“Eu fico emocionado de ver como que a Eucaristia atrai as pessoas, porque para nós católicos a Eucaristia é o centro da nossa fé, nós nos alimentamos da Eucaristia e com ela nos fortalecemos para a vida, para o cotidiano, então estar aqui com essa multidão de fiéis é uma alegria muito grande”, contou o bispo ao final do trajeto.
Em uma das sacadas da Avenida Vicente Machado, Rosângela Doruchuk testemunhava a cena como quem assiste a um milagre cotidiano. Há 15 anos, a devota da Igreja Ucraniana Transfiguração de Nosso Senhor transforma sua varanda em tribuna privilegiada para ver passar o Sacramento. "É lindo, maravilhoso. Sempre eu assisto e acho muito linda a fé das pessoas", disse, observando o fluxo interminável de fiéis que continuava mesmo após a passagem do Santíssimo.
No chão, Mateus Urban da Costa tem uma missão especial, ele é responsável pelos acólitos e coroinhas da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que acompanham o Santíssimo. Para ele, a verdadeira liturgia acontecia nos olhos brilhantes das crianças que, pela primeira vez, compreendiam o mistério que unia aquela multidão. "Nós estamos nessa igreja. Nós somos a Igreja e ver essa multidão de 40 mil pessoas dominando tudo é uma alegria", repetiu, como quem tenta decifrar o indizível.
Multidão que é uma única família
Dom Bruno não estava sozinho em sua estreia na procissão de Corpus Christi em Ponta Grossa. Pedro Henrique Gomes, jovem da Catedral Sant’Ana, também vivia sua primeira experiência na confecção dos tapetes e na procissão. Ao amanhecer, chegou cético, duvidando que muitos voluntários apareceriam para o trabalho minucioso de preparar as ruas para a passagem do Santíssimo. Mas, aos poucos, viu a comunidade se reunir como por um chamado invisível. Mãos desconhecidas se entrelaçaram em gestos precisos, vozes anônimas combinaram cores e formas, e o que surgiu não foi apenas um caminho decorado, mas uma prova silenciosa de que a fé constrói, une e transforma.
Quando a tarde chegou, Pedro já não era mais o mesmo. Agora, entre milhares de fiéis, sentia-se parte de algo maior. “Eu sei que o Dom Bruno tem um cuidado incrível com o Santíssimo e eu estou ansioso pra ver ele, andar com Jesus Cristo e mostrar a nossa cidade pra ele”, confessou, olhando a multidão que superava todas as suas expectativas. “Eu acreditava que ia ter no máximo um terço de tudo isso, mas é incrível como o senso da comunidade é grande.” Para ele, cada pessoa ali carregava uma história, inclusive a sua própria, de ser um dos poucos católicos na família. Mas naquela tarde, as diferenças se dissolviam no mesmo passo, na mesma oração. “Isso aqui mostra que realmente a gente é peregrino da esperança mesmo. Que tá todo mundo tentando se tornar uma família depois de tudo que a gente passou na pandemia”. E, enquanto o Santíssimo avançava entre flores e cantos, parecia claro: depois do isolamento, aquele abraço coletivo era mais que uma tradição. Era um recomeço.
A realização da procissão de Corpus Christi contou com o apoio do Asilo São Vicente de Paulo, Colégio Sagrada Família, Prefeitura de Ponta Grossa, Exército Brasileiro, patrocinadores através da Rádio Sant'Ana e inúmeros voluntários.
Fotógrafo AssCom Diocese de Ponta Grossa
