Há histórias que não começam em decretos ou documentos, mas em gestos simples: um pedaço de terra, um teto de lona, pessoas reunidas em torno da fé. A criação da Paróquia Santa Isabel de Portugal e a posse de seu primeiro pároco, no último domingo, 4 de janeiro, marcam um desses momentos em que passado e futuro se encontram, transformando memória em missão.
A Diocese de Ponta Grossa viveu esse marco histórico na Solenidade da Epifania do Senhor, com a elevação da Capela Santa Isabel à condição de paróquia e a posse do Padre Pedro Cláudio Mendes como primeiro pároco. A celebração foi presidida pelo bispo diocesano Dom Bruno Elizeu Versari e reuniu numerosos fiéis, coordenadores de pastorais e representantes dos movimentos da comunidade, em um clima de profunda alegria e esperança.
Mais do que um ato formal, a celebração expressou o nascimento de um novo tempo pastoral. Na missa de posse, como ocorre em todas as posses paroquiais, a Igreja apresentou, por meio de gestos e símbolos litúrgicos, a missão confiada ao pároco: a chave da igreja e do sacrário, seguida de um momento de oração diante do Santíssimo Sacramento; a água do batismo e os óleos santos, sinais do cuidado com a iniciação cristã; a estola roxa, que recorda o ministério da reconciliação; e o Santo Evangelho, entregue ao sacerdote que assume publicamente o compromisso de anunciar a Palavra e cuidar do povo que lhe é confiado.
Na homilia, Dom Bruno recordou que a Epifania revela um Deus que se manifesta a todos os povos e continua, ao longo da história, suscitando pessoas para anunciar aquilo que viram e viveram. “Todos nós, como batizados, somos chamados a ser missionários. O padre, na comunidade, é aquele que nos ajuda a enxergar”, destacou. O bispo também convidou a nova paróquia a não ter medo de ser pequena aos olhos do mundo, mas grande na humildade, na simplicidade e na fidelidade ao Evangelho.
Para os fiéis, a criação da paróquia foi vivida com emoção e confiança. “É um sentimento de muita alegria e gratidão a Deus por tudo o que estamos vivendo. A expectativa é a melhor possível, com a certeza de que Deus fará algo novo, diferente, algo que nunca vimos aqui na nossa comunidade e na nossa região”, afirmou o paroquiano Márcio Oliveira dos Santos. Segundo ele, essa transformação é sinal de que Deus conduz a história e reserva algo maior para seus filhos e filhas. “Essa é a nossa esperança e a nossa confiança em Deus”, completou.
Márcio também destacou que a comunidade chega a esse novo momento com uma caminhada pastoral já consolidada. Ainda como capela, Santa Isabel de Portugal contava com pastorais estruturadas, como a Pastoral da Acolhida, do Batismo, da Liturgia, a Pastoral Familiar, os Vicentinos, o Apostolado da Oração e a Pastoral da Comunicação (Pascom). “É uma comunidade bem organizada, quase completa — porque completa a gente nunca está — mas muito viva e comprometida”, afirmou, ressaltando a importância da comunicação como instrumento de evangelização e proximidade.
Em sua primeira fala como pároco, Padre Pedro Cláudio Mendes partilhou a alegria de iniciar a missão confiando-se à intercessão da padroeira. “Alguém me disse que os santos escolhem a gente. Eu ainda estou conhecendo Santa Isabel de Portugal, mas sinto que, de alguma forma, ela me escolheu”, afirmou. Reconhecendo a história construída ao longo de décadas, destacou que chega a um terreno onde muitos já deram a vida e realizaram um trabalho imenso. “Somos uma paróquia pequena, mas com coração grande, chamada a encantar pela simplicidade e pela missão.”
Também presente na celebração, o Padre Edemar de Souza, que acompanhou a comunidade por anos quando ainda era capela ligada à Paróquia Nossa Senhora de Fátima, expressou gratidão e emoção. “Saio com o coração feliz por perceber que a comunidade cresceu e hoje é paróquia. Dá saudade, mas é uma alegria imensa ver esse caminho frutificar”, afirmou, recordando sua ligação pessoal com Santa Isabel de Portugal desde a própria ordenação sacerdotal.
Uma história construída pela fé do povo
A história da Paróquia Santa Isabel de Portugal começa muito antes de sua criação oficial. Em 4 de agosto de 1974, sob um simples teto de lona, os primeiros moradores da Vila Odete se reuniram para celebrar a primeira missa, dando origem à então Capela Santa Isabel. Entre eles estavam Dona Maria Portuguesa e seu filho, conhecido como Portuga, figuras importantes na escolha da padroeira, inspirada no testemunho de Santa Isabel, rainha de Portugal.
A primeira capela foi construída com madeiras doadas por um convento, em mutirões que uniram famílias e vizinhos. Com a chegada do Seminário Antônio Marcos Cavanis, em 1980, nas proximidades do Cemitério Vicentino, a capela passou a ser acolhida pela Paróquia Nossa Senhora de Fátima, iniciando um período de crescimento pastoral.
Ao longo dos anos, a estrutura inicial deu lugar a uma capela de alvenaria, ainda com chão de terra, lembrando à comunidade suas origens humildes. Vieram depois salas de catequese, salão de festas e outros espaços de convivência e acolhimento. Mesmo em tempos difíceis, como durante a pandemia, a comunidade manteve viva a chama da fé, adaptando-se com celebrações ao ar livre e fortalecendo os laços de solidariedade.
Inspirada pelo carisma de sua padroeira — marcado pela promoção da paz, pela caridade e pelo cuidado com os mais vulneráveis, simbolizados no milagre das rosas — a comunidade da Vila Odete construiu uma história feita de simplicidade, serviço e compromisso com o Evangelho.
Ao ser elevada à condição de paróquia, Santa Isabel de Portugal não rompe com sua história; antes, a assume plenamente. A criação da nova paróquia reconhece uma caminhada sólida de fé e participação comunitária e inaugura um novo tempo pastoral para a Igreja em Ponta Grossa, projetando para o futuro a fé que nasceu, há 50 anos, sob um teto de lona.